Amigos,

a expansão do projeto e o elevado número de acessos abriram a oportunidade para darmos um passo a mais nesse projeto. Por conta disso, agora temos um domínio próprio: o crowdartizing.wordpress continua no ar, mas a partir de agora somos CROWD.NET.BR.

Atualizem seus favoritos!

Isis Alves: Produção Colaborativa e Tecnologias Sociais

Isis Alves - entrevistada CrowdArtizing

Isis Alves em uma das reuniões de trabalho da sua pesquisa (acervo Isis Alves)

Isis Alves de Farias é uma produtora independente que atua no Rio de Janeiro. Há um ano e meio, se dedica à pesquisa de Crowdfunding e Produções colaborativas no Brasil. Tive a oportunidade de entrevista-la depois de um contato feito por meio da comunidade crowdartizing no Facebook. Em meio a diversas atividades, entre elas a conclusão de uma graduação em Cinema e Audiovisual, Isis encontrou tempo para falar mais sobre o seu objeto de estudo.

Além do crowdfunding e da produção colaborativa, Isis trata também de um tema pouco explorado no Brasil, o das chamadas tecnologias sociais. Sobre a convergência em relação a esses temas, Isis argumenta: “algumas Produções Audiovisuais Colaborativas possuem um caráter social e buscam mudanças expressivas na sociedade, quando isso ocorre, ela se torna efetivamente uma tecnologia social. Primeiro, porque as duas já partilham algumas características em comum, como por exemplo: a preocupação com o baixo custo, com o amplo acesso e, principalmente, o fato de que elas só acontecem quando mais de uma pessoa se envolve, ou seja, só acontecem coletivamente; segundo, porque um grupo está fazendo uso de um conjunto de tecnologias visando mudanças sociais – que a grosso modo é o que define uma tecnologia social.”

Isis já conta com a participação de quatro coletivos na pesquisa: Filé de Peixe, AntiCinema, Mulheres – da idéia ao projeto e Mate com Angu. Mas aproveitou a oportunidade da entrevista para divulgar: “Quero entrevistar muitos outros coletivos, aceito sugestões [risos]”.

Para ela, a produção colaborativa tem um impacto principal na vida dos seus participantes: “o resgate da coletividade e do entendimento de que o ser humano não pode viver sozinho, aliás de que somos muito melhores unidos, do que isolados.” Essa percepção é particularmente benéfica nesses tempos de individualidade exacerbada. Ainda sobe essa questão, Isis completa: “acho a produção coletiva a melhor coisa que aconteceu nos últimos tempos. Outro impacto que acho bacana nesse modo de produção é a possibilidade de revelação de novos artistas e o sentimento de Eu também posso criar/fazer parte de algo”.

Sobre a possibilidade de se pensar em produção coletiva em outros universos artísticos como, por exemplo, na Literatura, respondeu: “Acredito que seja possível sim. No momento, a única coisa que consegui pensar foi na literatura enquanto registro da memória da humanidade. Os livros sempre foram ótimos para isso, uma produção literária coletiva que resgate e registre conhecimentos populares, como as histórias orais que não estão registradas em lugar nenhum, por exemplo, acho que seria algo interessante a se pensar”.

E quanto ao futuro da pesquisa? Uma vez concluída, o que podemos esperar como extensão do seu resultado? Sobre isso, Isis respondeu: “Minha ideia é que haja sim um produto final, e que o mesmo seja produzido de forma colaborativa, não importado em quantos produtos (filme, publicação, ilustrações, fotografia etc) esse produto inicialmente produzido se desdobre. Mas esse é um projeto um pouco mais ambicioso da minha parte e acho que deixarei para o Mestrado [risos]”. Ainda sobre o futuro do trabalho, completou: “uma coisa que certamente farei assim que possível, será disponibilizar toda a pesquisa em formato pdf para download. Devido à escassez de pesquisas, publicações e produção de conhecimento a respeito dos dois temas (produção colaborativa e tecnologia social) quero compartilhar o pouco que estou fazendo” E concluiu: “uma oficina sobre criação de coletivos artísticos, não se limitando ao audiovisual apenas, poderia ser uma boa ideia”.

Particularmente falando, torço pelo sucesso da pesquisa e das produções futuras.

História da Arte e Arte Colaborativa – Primórdios (I)

História da Arte e Arte Colaborativa – Primórdios - CrowdArtizing

Esse é o início de uma série de 4 ou 5 posts que discutem a história da Arte para a contribuição da discussão do crowdartizing. Mais especificamente, o foco desses escritos é um breve estudo sobre a figura do autor, e suas implicações para a Arte.

A referência principal para a discussão é o livro História da Arte, de E. H. Gombrich (1909-2001), aquele que serviu como referência para o projeto da Bia Bittencourt, com outras influências cuja presença possa dar mais consistência à série.

Sem mais delongas, vamos lá.

Os primórdios da Humanidade

Os primeiros registros gráficos dos quais se tem notícia foram encontrados em paredes de cavernas na Europa, no Brasil e em outras localidades. Provavelmente, nunca saberemos com certeza absoluta a finalidade de tais registros, mas Gombrich traz à discussão uma ideia fortíssima: o poder da imagem. Sim, seja qual for a finalidade daquelas imagens, elas certamente não eram simples exercícios de coordenação motora: cumpriam algum objetivo e por conta disso eram sistematicamente atualizadas – o que é evidenciado pela descoberta de sobreposições.

Quem, especificamente, realizava aquelas imagens? Se buscarmos algumas analogias com alguns povos indígenas e comunidades africanas consideradas como tecnologicamente primitivas, temos a oportunidade de especular sobre a possibilidade daquelas imagens serem realizadas por indivíduos específicos do grupo. Foram feitas pelo ancião? Pelo líder do grupo? Por um curandeiro? Talvez um místico? Não importa definir quem foi, mas defender que, naquele tempo, a produção artística estava associada a uma função social. Ou seja: o autor das imagens cumpria um papel na comunidade, e por essa razão realizava suas obras.

Essa ideia faz com que a identificação do artista, naquele contexto, não tenha relevância específica, assim como o conceito de individualidade. Digamos que tais imagens fossem realizadas pelo chefe do grupo. E se o chefe morresse e outro ascendesse à posição? Simples: as imagens continuam sendo realizadas pelo chefe do grupo – no caso, pelo novo chefe. Portanto, seria completamente irrelevante atribuir à obra um caráter de propriedade associada a autoria.

No Egito

Em algum momento da evolução da humanidade, entre as pinturas nas cavernas e a emergência das civilizações antigas, surge a tradição: alguém produz uma expressão artística, compartilha seus conhecimentos com um discípulo, posteriormente é admirado por um terceiro, reproduzido por um quarto… E então começa a haver um corpo de conhecimentos, obras e um rol de indivíduos relacionados a um universo chamado Arte.

Tal tradição já estava presente no antigo Egito, com seus monumentos, esculturas e paineis que serviam para imortalizar os faraós e prestar homenagens aos deuses. Milhares de anos atrás, escultores e pintores cumpriam a função de preservar a memória dos faraós, para lhes assegurar a vida eterna.

Os artistas egípcios cumpriam uma importante função, e para isso eram capacitados. A expressão artística era associada a um ofício, vinculado a um estilo específico, no qual não cabiam traços de originalidade. Sendo assim, não era relevante ainda o conceito de autoria: todas as obras deveriam atender a uma estética pré-definida e, pelo porte de algumas das produções encontradas, é bem provável que muitas delas tenham sido realizações colaborativas. Mas não havia qualquer relevância no fato de ser colaborativa ou individual, visto que a Arte estava vinculada a uma necessidade de apreensão da realidade. Não seria absurdo supor, inclusive, que traços de originalidade fossem interpretados como “erros”.

Isso mudou na Grécia. Veja o porquê na próxima semana.

CrowdArtizing: Sobre os Dois Meses e os Próximos

Optei por fazer um “break” nas postagens regulares para registrar alguns comentários sobre os dois primeiros dois meses do blog.

 

Em primeiro lugar, queria registrar que é cansativo, mas muito recompensador, realizar pesquisas constantes sobre o tema. A produção colaborativa é muito praticada, mas não há vastos estudos sobre a questão. Por incrível que pareça, tem sido mais fácil conseguir bons entrevistados do que boas fontes de consulta sobre o tema no contexto das Artes.

 

Aliás: todos aqueles que concordaram em responder às entrevistas enviadas estão de parabéns! Nunca imaginei que conseguiria, por exemplo, contar com o pessoal do DESTRICTED.BR, porque a soma do currículo deles é mais extensa do que a lista telefônica. Fica o agradecimento ao Lula Buarque de Hollanda e à Janaína Tschäpe que reservaram parte dos seus respectivos tempos para a entrevista. A Bia Bitterncourt, com quem eu já havia trocado alguns emails antes de convidar para ser entrevistada, certamente abriu as entrevistas com chave de ouro e, até o momento, foi o pico de acessos ao blog. Dos quase 700 acessos obtidos em dois meses, boa parte se deve a ela.

 

Da mesma forma, é muito bom contar com as forças emergentes da produção colaborativa nacional: EuProdutor, Otto Kohlnrausch & Roberto Hollanda, Renato Amado e André Calazans são artistas e articuladores de ações que abrem novas frentes coletivas. Quanto mais, melhor!

 

Bom, a pauta de setembro está pronta: na parte da discussão teórica, vou dar um passo atrás e começar a discutir Arte, depois volto à carga para a arte colaborativa. Foi o único jeito que encontrei para construir um argumento mais sólido, dada a escassez de referências escritas. Depois vou abordar a cultura remix e os mashups, e no final do ano vou abordar a questão dos direitos autorais e da propriedade intelectual. Na parte das entrevistas, vamos ter zineiros, empreendedores e… bom, em setembro tem uma surpresa, das grandes, aliás a maior do Brasil no seu segmento. E estou falando sério.

 

Por fim, queria compartilhar que o projeto do blog tem sido uma atividade que me causa profundo orgulho. Não é só pelos comentários positivos, não é só pela oportunidade de conhecer tanta gente genial: é que às vezes a vida nos dá fardos pesados que precisam ser compensados com coisas boas. Além da alegria que tenho com a minha maravilhosa família (maravilhosa mesmo!), o CrowdArtizing tem sido uma das poucas e permanentes fontes de satisfação pessoal.

 

Por fim, queria registrar também uma agradecimento mais que especial ao pessoal da comunidade CrowdArtizing no Facebook. Estou torcendo (e me empenhando) para que dali surjam muitos projetos de sucesso.

 

É isso. Na semana que vem, voltamos à programação normal.

MANIFESTOS! Parte Final

Depois do auge dos movimentos do início do século XX, o manifesto de certa forma perdeu sua essência de mobilização político-artística, e apresentando-se de forma menos contundente na sociedade. A partir da segunda metade do século, ações como a publicação de manifestos em jornais de ampla circulação se tornou mais rara, na mesma medida em que alguns dos manifestos passaram a assumir um caráter distinto: ao invés de expressarem um pensamento coletivo sobre determinada proposta estética, alguns manifestos passaram a ser manifestações unilaterais “em busca de adesões”. Não que esses tenham menos valor do que aqueles que antes eram praticados, mas de certa forma são menos representativos.

A explosão das formas de expressão e o fortalecimento da experiência individual fez com que houvesse uma profusão de manifestos a partir dos anos 60, concretizados em performances, videoarte etc. Se por um lado estes se diversificaram a forma de publicidade do seu teor, em contraparttida reduziu a capacidade de incitação do debate na sociedade como um todo, visto que a compreensão artística passou a ser uma forma de pré-requisito para a efetiva assimilação e debate.

Os movimentos coletivos se enfraqueceram no mesmo período,  sendo de certa maneira suplantados pelos coletivos artísticos, muito mais diversos e em muitos casos desprendidos de qualquer proposta profundamente elaborada com vistas ao debate. É um período caracterizado pela ampla forma de expressão de temas delimitados que permanecem em contato com a realidade, mas não necessariamente numa lógica de intensificação ou de enfrentamento, o que fica patente nos manifestos publicados cinco ou seus décadas antes.

Os manifestos, portanto, ficam caracterizados como sinais dos tempos encerrados, pouco significativos para a arte contemporânea porém dotados de um valor histórico relevante.

 

Renato Amado e C,L&P: Caneta, Lente, Pincel e muito mais

Renato Amado, do coletivo Caneta, Lente & Pincel

Renato Amado (divulgação)

Renato Amado é um dos articuladores-chave do Caneta, Lente & Pincel – C,L&P, coletivo artístico que propõe o permanente diálogo entre palavras e imagens. O time criativo conta, atualmente, representantes de diversas formas de expressão artística, como videoarte, poesia, e também fotografia, pintura e outras mais.

Criado em 2009, o C,L&P é organizado em torno de Rodadas, nas quais escritores produzem textos a partir de imagens produzidas por outros membros do coletivo, ou vice-versa. O resultado desses diálogos é publicado no blog do coletivo. Além do blog, o C,L&P promove saraus periódicos – o próximo será em setembro, na cidade de Niterói, e também exposições, um livro publicado pela Editora Flâneur e ainda prevê o lançamento de um zine.

Conversamos com Renato Amado sobre o projeto, que começou a partir de um bate-papo informal: “Em um almoço com um amigo fotógrafo,Guilherme Quaresma, animado por ter sido finalista de um concurso de fotografias, me convidou a fazer um blog com ele, no qual eu escreveria textos para suas fotografias. Fiz a contraproposta, então, de termos um corpo de colaboradores, contando com artistas plásticos e fotógrafos de um lado e escritores de outro. A partir daí desenvolvemos um sistema de rodadas, de modo que em cada rodada se formam determinadas duplas que desenvolvem suas obras. As duplas sempre são formadas por um artista visual e um escritor. O artista envia sua obra ao escritor que produz um texto inspirado nela. Em algumas rodadas invertemos o processo. É interessante que apesar de termos começado com artistas plásticos e fotógrafos para fazer dupla com os escritores, aos poucos fomos expandindo as possibilidades de manifestações artísticas e hoje se pode dizer que já tivemos a maioria das possibilidades artísticas expressadas no CL&P: desenho, fotografia, escultura, videoarte, animação, performance, música eletroacústica…”.

Um aspecto importante, que evidencia certa sofisticação no C,L&P, é a transversalidade do projeto, com suas diferentes formas de expressão – pintura, fotografia, animação, prosa, poesia… – e de produtos gerados – sarau, livro, blog, exposição. Sobre a atividade de coordenação de todas essas frentes, Renato afirmou que o crescimento foi gradual e que o aumento da complexidade está sendo acompanhado do aumento de colaboradores na organização: “Começamos exclusivamente com o site e depois fomos extrapolando para o mundo físico também. A atividade de coordenação é cansativa. No início foi bem complicado. Começamos com 22 colaboradores e administrar 22 almas não foi nada fácil, sobretudo quando se trata de artistas. Mas aos poucos as coisas foram se assentando e com o tempo foi possível começar a delegar. Hoje temos um coordenador para o site (Gilson Beck) e outro para os encontros (Paulo Resende). Tendo me desincumbido da rotina destas duas principais manifestações do projeto, me dedico hoje sobretudo a abrir novas frentes, como escrever projetos, coordenar exposições, etc”.

A produção coletiva influenciar as obras individuais? A resposta de Renato a essa questão foi enfática: “Sem dúvida. Muitos colaboradores já me agradeceram por “forçá-los” a criar. Eu mesmo, se não fosse o CL&P, talvez já tivesse deixado o escritor ser devorado pelo agitador cultural (Renato publicou o livro Vale do Rio Preto, pela editora Multifoco, em 2009, organizou a coletânea do C,L&P e prepara o seu segundo romance para publicação em breve). Desse modo, o CL&P, como exige uma produção contínua, responde por uma parcela significativa da produção dos colaboradores nos dois últimos anos. E, como a produção para o CL&P passa por um diálogo artístico, o artista é necessariamente influenciado por outro de área diversa. De minha parte, posso dizer que o contato com tantos artistas plásticos aumento meu conhecimento na área e sem dúvida influenciou minha produção. Creio que coisa semelhante ocorra com a maioria dos colaboradores do projeto. Isso sem falar em projetos em duplas que surgem através do contato de tanto artistas”.

Um coletivo com tantas frentes também se relaciona com diferentes públicos. Aliás, o conceito de “público” é questionável, uma vez que não há nele um caráter passivo – integrantes do “público” já se tornaram colaboradores permanentes. Nos próprios saraus, os participantes são convidados a colaborar com textos e com imagens, configurando uma dinâmica fundamentalmente participativa. Essa participação não se restringe, no entanto, aos saraus: “também é possível participar mediante o envio de uma pequena biografia e portfólio para o nosso e-mail. Teve gente que já se tornou colaborador fixo assim”.

Para concluir, Renato falou sobre o sentimento que tem em relação  ao projeto e sobre planos futuros: “É delicioso poder ter contribuído na colocação de mais de trezentas novas obras de arte no mundo e ter permitido tantos encontros artísticos e criação de novos relacionamentos. No momento, o foco é realizar uma exposição num importante centro cultural e começar a desenvolver formatos de oficinas”.

Vale comentar que o escritor Andre Calazans, que lança livro no Rio de Janeiro no próximo 31 de agosto, já fez parte do time do coletivo.

Para quem se interessar, segue abaixo o flyer do próximo sarau.

Flyer do Sarau Caneta, Lente & Pincel de Setembro - 2011

MANIFESTOS! Parte I

Os manifestos são um aspecto relevante da história da produção artística mundial, especialmente nas primeiras décadas do século XX.

A Wikipedia associa os manifestos às vanguardas artísticasFuturismo, Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo – que, tais como os partidos políticos, foram articulados em torno desses documentos e da militância.

No Brasil, o manifesto mais proeminente foi o Manifesto Antropofágico, de autoria de Oswald de Andrade e publicado em 1928 na Revista Antropofágica. Mais do que um texto, era uma síntese da leitura de diversas influências que permeavam a política, a psicologia, a antropologia, a produção artística e outros campos do saber, numa perspectiva de “diálogo forçado” entre as influências que formaram o povo brasileiro.

Os manifestos propunham a inserção dos movimentos nas realidades contemporâneas. O Manifesto Futurista, por exemplo, tratava de temas tão atuais – guerra, avanço tecnológico, negação das tradições – para o início do século XX quanto seria, hoje em dia, tratar de questões como o combate à homofobia e as mudanças climáticas, sob uma perspectiva artística. Nesse sentido, o manifestos eram declarações de aproximação da Arte com outros universos. Os futuristas transpareceram essa relação na tipografia, no design gráfico, na pintura, na produção audiovisual, na literatura e em outras formas de expressão.

De volta ao Brasil, outro manifesto relevante de vanguarda artística foi o Manifesto Neoconcreto, publicado em 1959. O Neoconcretismo foi uma releitura nacional do Concretismo, menos dogmática e mais sensível. O manifesto foi publicado no Jornal do Brasil. O movimento teve adesão de pintores, artistas plásticos poetas e outros artistas, destacando-se do grupo neoconcretista nomes como Lygia Clark, Lygia Pape, Ferreira Gullar, Amílcar de Castro e outros.

Em termos de contribuição para o debate da produção colaborativa, nos interessa mais especificamente tratar do manifesto como recurso para a promoção da produção artística. Isso porque o manifesto nunca foi um “testamento”, do qual se tinha conhecimento após o término de uma determinada vanguarda, mas cumpria de certa forma a função de um estatuto. Ali estavam presentes os paradigmas estéticos, e os integrantes de um dado movimento – ou aqueles que com eles tinham afinidade – reproduziam em suas obras os respectivos estatutos ou suas próprias releituras. Numa perspectiva colaborativa, o manifesto servia como referência para o compartilhamento de influências e também de processos de produção.

Janaina Tschäpe e Lula Buarque de Hollanda: Arte & Pornografia em DESTRICTED

DESTRICTED

DESTRICTED é um projeto internacional que explora a interseção entre a arte e a pornografia. A forma de expressão desse diálogo é a produção de curtas-metragens, cuja realização contou com nomes de peso entre artistas plásticos e outras formas de expressão. O projeto é desenvolvido desde 2004, e em 2010 contou com uma edição nacional, o DESTRICTED.BR.

Os brasileiros Janaina Tschäpe e Lula Buarque de Hollanda participaram do Destricted.br. Um dos articuladores da edição nacional, Lula Buarque contou um pouco da origem do projeto:  “Eu tinha o projeto de fazer uma instalação sobre pornografia na internet, seria o meu primeiro trabalho em artes plásticas… fui conversar com a minha amiga e galerista Marcia Fortes e ela falou do projeto produzido pelo curador Neville Wakefield sobre arte e pornografia. Falou da vontade do Neville em fazer o projeto no Brasil. Adorei a idéia e em 2008 começamos a desenvolver o projeto. Eu produzi todos os filmes com a colaboração da Marcia e Alessandra, o Neville e a Marcia fizeram a curadoria e escolheram os artistas.”

 

O trio – Neville, Marcia e Lula – foi responsável pela seleção dos outros participantes, entre eles Janaína: “Me mandaram os filmes que já tinham sido feitos, do projeto Destricted 1, com Mathew Barney, Marina Abramovic , Larry Clark etc..”. A resposta ao convite foi a produção do primeiro dos curtas que integraram a obra. A artista falou um pouco sobre o conceito da sua obra: “Passei semanas pesquisando a internet… Impressionante a quantidade de sites, de blogs, de comunidades , enfim um universo intenso que eu realmente desconhecia como tal. Confesso que fiquei muito impressionada com o que comecei a ver. A violência, o exagero e principalmente o abuso da mulher. A quantidade de sites de estrupo, estrupos em grupo, for do que foi feito do corpo feminino. Raspado, cheio de silicone visto como um mero meio para a satisfação masculina. Tentei fazer uma pesquisa do que parecia estar na “Moda” e resolvi fazer um filme como os que estão sendo produzidos em massa.. Só troquei o ponto de vista da câmera.”. Janaína se referia às obras classificadas como POV – point of view, que simulam os olhos do espectador do filme. Ainda sobre a sua obra, concluiu: “Normalmente a câmera foca na mulher, às vezes ate cortando o rosto dos integrantes masculinos, então coloquei uma micro câmera na testa da minha atriz, um pouco para mostrar o que ela vê durante a filmagem.

 

Sobre a motivação de participar, Lula comentou um questionamento central para ele: “me interessa entender como a indústria da pornografia se apropriou da representação do sexo no nosso imaginário, associando prazer a violência e a degradação da imagem da mulher. Esta é a representação que é encontrada na internet e acaba sendo a referência que educa a nova geração e nossos filhos. Acho que é possível pensar uma pornografia “saudável”, amorosa, artística, esta é a discussão que me interessa. Os curtas vão no cerne desta questão“. Janaína, por sua vez, afirma que a participação no projeto, cercada de outros nomes reconhecidos em suas produções artísticas, foi um desafio, mas “principalmente o tema, que me interessou muito. Não que meu trabalho seja diretamente relacionado com pornografia. Mas o que me interessou foi ver como artistas lidam com este tema, e como relacionar o próprio trabalho ou não com o tema”.

 

Há um aspecto específico no caso de Lula, que produziu todos os curtas, que foi a oportunidade única de compartilhar o processo de realização com todos os demais artistas: “Foi um privilégio. Eu já tinha bastante experiência em cinema, já tinha trabalhado com músicos e atores consagrados, mas com artistas plásticos foi a primeira vez. Aprendi muito com o processo e a convivência com os artistas. A troca foi muito produtiva, pois consegui trazer a minha experiência em cinema para a qualidade final dos filmes”.

 

Janaina falou um pouco também do que representou para ela tratar de pornografia, sem que essa seja uma temática em sua produção individual: “para mim foi uma experiência inusitada, entrar num universo tão diferente do meu trabalho. Por isto também não tentei forçar o filme ter a cara do meu trabalho, mas realmente tentei desenvolver um conceito para abordar o tema”. O trabalho, portanto, rendeu uma releitura da sua própria abordagem artística, gerando por fim uma obra que é parte, e ao mesmo tempo uma exceção, em sua carreira. Ao mesmo tempo, o trabalho abriu as portas para a percepção de um novo mundo, da indústria da pornografia, e sob uma perspectiva muito mais invasiva do que aquela do espectador: “ver como tudo acontece “behind the scenes” muda toda a ideia de como ver estes filmes.A atriz que fica sem comer um dia, remedinhos, Viagra, tudo muito calculado, e sem envolvimento nenhum. Um universo bem triste, mas com um publico gigante no mundo inteiro”.

 

Lula, por sua vez, guarda uma relação especial com a sua produção, afirmando que se tornou “outra pessoa depois de conviver com pessoas maravilhosas como meus companheiros de Destricted.br. Nas artes plásticas o artista tem liberdade total, é o topo da pirâmide de todas as artes. Tenho vontade de desenvolver outros trabalhos depois do Destricted.br, já tenho algumas ideias mas no momento estou trabalhando no meu próximo longa-metragem. Ainda não tenho distanciamento suficiente para sentir a influência do Destricted. br no meu trabalho, mas ele é um filho muito querido“.

 

Destricted.br contou ainda com a participação de Adriana Varejão, Julião Sarmento, Marcos Chaves, Miguel Rio Branco e Tunga. Sobre a trajetória da obra e sobre o futuro, Lula concluiu: “Destricted.br é um projeto que pretende atravessar fronteiras e ir alcançando o seu público sem pressa. Depois da exibição no Festival do Rio no ano passado, fizemos outra durante a SP Arte e agora inaugura a expo no Galpão Fortes Vilaça. Temos vontade de mostrar no Rio durante o próximo verão. As pessoas que já viram adoram ou detestam, não existe meio termo, é um projeto VISCERAL !!!!!”.

Cena do filme Destricted.br

Cena de DESTRICTED.BR (fonte: UOL Cinema)

Coletivos Artísticos no Brasil

CrowdArtizing coletivo

Esse texto não tem a pretensão de se firmar como uma versão definitiva dos coletivos no Brasil, mas serve como base para compreender a importância desse tipo de manifestação em nosso país.

Conceito

O coletivo artístico é a união de pessoas para a produção em torno de um tema comum. Esse tema, normalmente abrangente a ponto de permitir diferentes leituras, serve como pano de fundo para as produções individuais ou coletivas a ele associadas.

Temos diversos exemplos célebres: o Viajou sem Passaporte (1978-1982), por exemplo, explorou formas de intervenção na vida urbana, na expressão artística e na atividade acadêmica. O Asdrúbal trouxe o Trombone (1974-1984) inovou na montagem teatral, demonstrando irreverência e influenciando toda uma geração do teatro nacional. O Grupo Manga Rosa (1978-1982), por sua vez, explorou as artes visuais e artes plásticas, tendo inclusive realizado experimentações com materiais utilizados na construção civil. Para encerrar os exemplos, a Intrépida Trupe (a partir de 1988) explora em suas montagens a conjunto de talentos relacionados ao circo.

A lista de exemplos é propositalmente superficial e episódica, espelho da ausência de investigações mais consistentes sobre o fenômeno do coletivo no Brasil. Muito embora alguns desses grupos tenham revolucionado a forma de expressão à qual se dedicavam, e de terem provocado reflexões na sociedade, carecemos ainda de um estudo respeitoso do tema.

Coletivos: sociedades criativas

Um aspecto interessante nos coletivos é a possibilidade da transcendência da obra em relação à criação individual. A atuação conjunta é mais do que uma mera coleta de obras com temas afins. Muitas vezes, o resultado da atuação é uma única produção, compartilhada em regime de co-autoria por todos os seus criadores que atuam em regime de “sociedade”.

Mais do que isso: num processo como esse, é inevitável o intercâmbio de técnicas, elementos da estética e de meios de produção artística, de modo que o participante de um coletivo, ainda que rompa com o grupo, traz consigo a influência daquela dinâmica.

Coletivos e contracultura

Especificamente no Brasil, os coletivos tiveram papel crucial na discussão e na denúncia dos abusos cometidos pelos governos militares. De certa forma, a produção individual e coletiva naquela época retomou os anseios de engajamento apregoados pelos Modernistas. Assim, a produção das décadas de 1970 e 1980 resgatam valores que haviam sido defendidos cinco décadas antes. A diferença, no entanto, é que a produção dos coletivos no segundo período, muitas vezes, apresentavam a questão de forma velada, em oposição às manifestações explícitas dos modernistas. Parte da obra do já citado Viajou sem Passaporte, e também dos coletivos 3Nós3 e Tupi Não Dá, representavam essa discussão em torno da ausência de democracia e do desrespeito aos direitos civis.

Novos Tempos

A partir dos anos 1990, a questão do coletivo toma impulso com a internet e a telefonia celular. De certa forma, emerge da ideia do coletivo uma organização muito mais fluida, muitas vezes sem qualquer compromisso de continuidade, como por exemplo no caso dos flash mobs. O CrowdArtizing, de certa forma, não deixa de ser uma variante no conceito do coletivo, sinal dos tempos. Ainda assim, a figura do coletivo artístico se faz representar por grupos como o Contra Filé, o Queer Fiction e tantos outros.

EuProdutor: Produção Colaborativa em Escala Mundial

 

EuProdutor. Esse é o nome do articulador da comunidade no Facebook que deu origem ao blog. Para comemorar nossa marca de um mês de publicação, entrevistei EuProdutor para discutir a questão da produção colaborativa como ele a propõe.

Para ele, “a produção colaborativa é a expressão artística da inteligência coletiva. Nenhum de nós detém a máxima aptidão em todas as áreas da expressão. A produção colaborativa permite a transposição de limites, a produção contínua e de qualidade, permite ao artista ir além do que poderia alcançar numa trajetória solitária”.

A forma de articulação escolhida por ele foi a criação de uma comunidade no Facebook para promover a colaboração, sem prejuízo para a produção individual de cada um. EuProdutor afirma que “a troca de conteúdos pela internet permite que haja colaboração em níveis muito mais intensos. Pela comunidade, já houve diálogos entre pessoas do Rio de Janeiro e de Natal, de São Paulo e de Florianópolis, de Goiânia e de Porto Alegre. A comunidade concentra e estimula essas trocas”. Também acredita que a “mistura” está em nosso DNA, por conta da miscigenação e de outros fatores, e que isso facilita essa colaboração que ele pretende incentivar. E é bem-vinda a participação de artistas estrangeiros: “eu mesmo tenho os meus projetos em andamento que contam com membros da comunidade artística de Leipzig (Alemanha), de Paris (França) e com espanhóis, portugueses, americanos. É preciso ousar, é preciso se lançar no mundo e contar com quem colabora”.

A comunidade é aberta para quem quiser fazer parte, sendo que “não há processo seletivo: o critério de permanência é a troca com os demais integrantes. Estão todos convidados: fotógrafos, pintores, bailarinos, músicos, curadores, críticos, empresários do ramo artístico, designers, poetas etc. etc. etc.”.

Uma questão que merece atenção é onde EuProdutor pretende chegar: “quero que a comunidade entre em um ritmo virtuoso, no qual vamos realizar um projeto colaborativo a cada três ou quatro meses. O projeto pode ser um livro, um festival de artes, um filme… não importa. O importante é que os integrantes entrem no ritmo e “façam” arte de forma contínua. Faremos arte em escala industrial.”

Por fim, a irresistível pergunta: por que a escolha do nome “EuProdutor”? A resposta está reproduzida abaixo, na íntegra: “Porque a essência da produção é o auto-conhecimento. É preciso que cada um assuma o seu “eu” que é capaz de criar, de produzir, de transigir. Além do mais, somos todos cercados de preconceitos: se eu for “Francisco”, ou “Ronaldo”, ou “Fernanda”, trago comigo traços de personalidade que vão fazer com que você crie afinidades ou mesmo antipatias em relação a mim. Minha identidade é desprezível frente às ideais que defendo. São essas ideias que devem ser discutidas, e não o fato de eu ser bonito ou feio, jovem ou velho, gordo ou magro”.

Detalhes de obras individuais e coletivas publicadas por membros da comunidade CrowdArtizing (Acima - Roberto Hollanda (esq.), Adriana Seiffert(dir). Abaixo - Paulo Resende+Marcos (Andruchak))